Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

O Que Sei Sobre a China - Breves considerações estratégicas.

O recente atrito entre Brasil e China, gerado principalmente pela nítida e constante oposição do presidente eleito Jair Bolsonaro à atuação internacional daquele país— que vem claramente demonstrando suas políticas de fortalecimento interno e expansão internacional—,fez com que, pelo menos no Brasil, os holofotes se voltassem novamente para Beijing, centro político da China. Do ponto de vista da estratégia chinesa este atrito é obviamente da maior relevância para o Brasil, pois se por um lado nosso país atravessa um momento de grande fragilidade e dificuldade, caracterizado por notória instabilidade político-econômica, por outro a China é politica, econômica e socialmente estável, e demonstra evidentes aspirações militares e expansionistas, além de um crescente protagonismo como grande potência mundial. Logo, enquanto a China atravessa um momento de solidez, estabilidade e segurança, o Brasil vive a fragilidade, a instabilidade e a incerteza. Estamos, portanto, em desvantagem.

Assim, o momento exige que o Brasil estabeleça cuidadosamente a postura que adotará em relação à China. E a não ser que o governo consiga reverter nossa condição de desvantagem frente àquele país, qualquer futura postura que adote, seja de parceria ou antagonismo, representará risco significativo. Entretanto, este impasse pode e deve ser remediado, e o primeiro passo para tanto é entender com clareza as duas partes envolvidas. Sobre nosso país, pouco posso acrescentar; porém, por ter formação acadêmica adquirida na China, especialização em estratégia chinesa, e a experiência de ter vivido completamente imerso culturalmente naquele país por quinze anos, me sinto justificado em crer que há algo que eu possa dizer a respeito. Assim é que, nos parágrafos abaixo, teço algumas breves considerações sobre o modo de pensar chinês. 

A China é um país de natureza intrinsicamente estratégica, que não pode ser facilmente compreendido sem um profundo conhecimento de seus objetivos enquanto nação, dos elementos culturais que determinam tais objetivos—em grande parte, a estratégia, a manipulação e o engodo, entre outros—, e dos hábitos e peculiaridades do dia a dia que permeiam a existência de seu povo, desde as mais elevadas esferas intelectuais e políticas até a vida do homem simples do campo. Para tanto, é preciso primeiramente distinguir três princípios fundamentais: o primeiro é que a China tem uma tradição milenar do estudo da estratégia, edificada sobre as pedras fundamentais do engodo, da manipulação e da amoralidade; o segundo é que tal tradição é amplamente aplicada nas áreas política, social, econômica e diplomática; e o terceiro, é que a estratégia chinesa tem dupla finalidade: define objetivos a serem alcançados bem como os métodos utilizados para tanto. Uma vez entendidos estes aspectos, pode-se passar a uma breve explicação dos atuais objetivos chineses.

As metas chinesas foram claramente descritas em 2013, pelo então primeiro ministro Xi Jinping, durante discurso frente ao Congresso em Beijing:  

“Alcançar o grandioso sonho do ressurgimento da China, significa ser capaz de alcançar uma China próspera e forte, uma nação revitalizada, um povo feliz; significa refletir profundamente as aspirações do homem chinês da atualidade, e também a gloriosa tradição daquele incansável estado de espírito de nossos antepassados de perseguir o progresso.” 

A fala de Xi Jinping é representativa porque nos apresenta fatos essenciais para o bom entendimento sobre a China—a saber os conceitos de “ressurgimento” e “gloriosa tradição.” Os conceitos de “ressurgimento” e “gloriosa tradição” demonstram que a China tem não somente o conhecimento da vital importância de sua milenar tradição cultural, mas também o entendimento de que esta, essencialmente estratégica por natureza, deve estar refletida em todas as esferas da China moderna, assim como esteve também refletida durante todos os períodos da história chinesa. Note-se ainda o conceito de “China próspera e forte”, onde “próspera” significa a busca chinesa pelo poder econômico, e “forte” a busca pelo poderio militar.  Entretanto, meramente compreender os objetivos chineses não basta—para a medir a extensão do seu verdadeiro poder e estimar sua capacidade de ação estratégica, é também necessário olhar para a própria cultura que determina tais objetivos. 

Compreender a formação cultural de um país é necessário para que se possa tentar entender sua situação atual, medir a extensão de seu verdadeiro poder—em contraposição ao poder de ação aparente—,identificar tendências sociais, econômicas e políticas, estimar sua capacidade estratégica, e determinar possíveis ações de política interna ou externa. No caso da China, esta necessidade é importante por duas razões—primeiro porque, como declarado pelo próprio Xi Jinping, a China não somente reconhece sua herança cultural,  mas a incorpora como componente fundamental para o seu ressurgimento; e quando se compreende que esta herança cultural da qual fala Xi Jinping é em grande parte a herança de uma cultura milenar da estratégia, da manipulação e do engodo, então percebe-se logo que incorporar tal herança cultural significa incorporar elementos da estratégia da manipulação e do engodo a toda sociedade. Não é por outra que o maior clássico da estratégia chinesa e mundial, A Arte da Guerra, diz que “a guerra se faz através do engodo.” Tendo agora exposto, ainda que de forma introdutória, a razão pela qual é preciso buscar respostas  na cultura chinesa, podemos voltar o olhar uma vez mais à fala do primeiro ministro Xi Jinping.

As declarações do primeiro ministro Xi Jinping devem ser razão mais que suficiente para que o governo brasileiro—e em especial a equipe do presidente eleito—entenda que está lidando com uma nação construída através de uma cultura estratégica cujos alicerces são—não somente, mas em grande parte—a estratégia, a manipulação e o engodo. E neste sentido, o entendimento de como a cultura estratégica chinesa afeta suas políticas de cooperação internacional é fator importantíssimo para que o Brasil não somente se posicione melhor em relação à China, mas também entenda melhor o posicionamento chinês em relação ao próprio Brasil. Vejamos de forma sintética, o que é essa cultura estratégica.

Em um primeiro momento, entender a cultura estratégica chinesa—e os elementos do engodo, da manipulação e da amoralidade que ela abarca—significa saber que ela está enraizada no próprio modo de pensar e proceder do homem chinês, e que, como resultado, os chineses estão sempre pelo menos dez passos à frente em qualquer negociação, seja ela de natureza privada ou não. Com efeito, o que esta herança cultural proporciona ao chinês é uma “consciência estratégica” que lhe permite estar sempre ciente de qualquer situação através do entendimento inato—e muitas vezes inconsciente— dos conceitos estratégicos que lhes são transmitidos oralmente de geração a geração. Assim, qualquer chinês é sempre um estrategista nato. Entretanto, não satisfeitos com esta consciência estratégica inata, todos os grandes políticos chineses e certamente todos os militares de alta patente conhecem, alguns muito bem, os clássicos da estratégia e da manipulação psicológica da literatura chinesa. Finalmente, reitero o fato de que, em sua maior parte, a estratégia chinesa é completamente amoral, o que significa—e este deve ser o foco de nossa atenção— que sua implementação para alcançar objetivos militares, políticos, econômicos e sociais não é orientada ou limitada por qualquer preceito moral. Logo, fica claro o quão delicado é qualquer tipo de relação com a China, um país guiado pela estratégia. Vale lembrar que, também em 2013, ano do discurso do primeiro ministro Xi Jinping, o jornal The New York Times noticiou que a empresa de segurança virtual Mandiant havia diretamente implicado o exército chinês em ataques virtuais a empresas e agências de segurança norte americanas. Beijing, naturalmente, negou as acusações. Nas relações com a China, o Brasil não pode desconsiderar a capacidade chinesa de implementação estratégica.. 

Um estudo sobre a estratégia e a história chinesas irá revelar diversos momentos em que a estratégia foi fundamental para o seu desenvolvimento. Um desses momentos é o período de 1949 até o atual. Durante estas poucas décadas a China, que havia se tornado um país absolutamente miserável, mãe de um povo faminto e desesperado, tornou-se uma das grandes potências mundiais, fato impressionante que se deve em grande parte à estratégia, a manipulação psicológica, a unidade de pensamento e ação que dela resultaram e ao engodo. Naturalmente a China é muito mais do que sua tradição estratégica. Não seria correto negar ou deixar de registrar aqui a impressionante resiliência do povo chinês frente aos obstáculos que a história  lhes tem apresentado, ou sua coragem e determinação em implementar os gloriosos ideais de moralidade ensinados pelo grande educador Confúcio. Todavia, a China não nos deu somente aquele mestre educador e seu sonho de uma sociedade moral e equilibrada—nos deu também o general Sunzi, o maior de todos os estrategistas chineses, e o eremita Guiguzi, o seu maior mestre da manipulação psicológica. O educador pregava a moralidade e a ordem; o general, a vitória e o engodo; o eremita, a manipulação e o convencimento. O sonho da China moderna pede a moralidade do educador, mas a realidade demanda a estratégia e o engodo do general, e a manipulação do eremita. E é justamente o entendimento desta dinâmica entre o educador, o general e o eremita, que nos leva a compreensão de como funciona a sociedade chinesa atual, e de como a China se comporta no cenário internacional. De modo geral, o chinês veste o manto do educador, mas pensa como o general, e age como o eremita. 

Muito pode ainda ser dito sobre a China, até mesmo do ponto de vista estratégico, pois o que apresentei aqui foi apenas uma brevíssima introdução ao assunto. Não obstante, creio que este breve artigo tenha alcançado seu objetivo de mostrar claramente a razão pela qual nossa atual situação com a China merece grande atenção. Através dos pontos abordados, procurei apresentar os elementos mais essenciais do pensamento estratégico chinês—bem como sua absoluta relevância no pensar e no proceder do homem chinês—na medida em que dizem respeito a política externa chinesa e na medida em que podem afetar diretamente nosso país. O que preocupa efetivamente do ponto de vista da estratégia, é entender não somente as reservas mentais dos chineses durante negociações, mas também como pensam o homem comum e a elite. E como a diplomacia tradicional é incapaz de interpretar estes dois elementos, é preciso então que haja alguém capaz de fazê-lo. Sem que haja alguém qualificado para tanto, estaremos sempre em desvantagem.  Críticas, comentários e sugestões podem ser enviados diretamente para meu email: t@tadziog.com







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