Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

Leandro Karnal e o Budismo

Os leitores que seguem meu blog já sabem que tenho opiniões bastante claras a respeito do estudo, entendimento e  transmissão dos conhecimentos relativos à China e sua cultura - resumindo, para se falar da China com a mínima autoridade é necessário proficiência em chinês moderno, e para se falar do pensamento clássico chinês, também com a minima autoridade aceitável, é necessário proficiência em chinês clássico.

No caso do Daoismo a necessidade linguistica é evidente, porquanto não dominar o chinês clássico isola o leitor e fatalmente implica em uma compreensão capenga e bastante limitada dos textos daoistas, que são ricos em nuances, apresentam palavras com diversos níveis de significado e frases que abrem um riquíssimo leque de diferentes interpretações. Mais do que isso, quem lê unicamente traduções perde os detalhes que somente a leitura do texto original apresenta, sendo portanto incapaz  de formar com o autor o diálogo que a leitura deste tipo de texto demanda. Como resultado também nunca estabelece uma conexão real com o autor e seu texto e nunca participa realmente de um processo que idealmente englobaria o leitor mesmo, o texto e o autor - ele é sempre um mero expectador. Para além disso, este tipo de leitor também não tem acesso aos outros textos filosóficos* que são parte fundamental dos próprios textos daoistas, e deste modo ele deixa de se beneficiar diretamente da leitura desses outros textos, não podendo nem compreende-los e nem compreender o daoismo à luz dos mesmos. Assim, este tipo de leitor não é somente incapaz de dialogar com os textos daoistas, mas é também incapaz de acompanhar o dialogo dos próprios textos daoistas com os textos de outras tradições filosóficas chinesas.  Portanto, a necessidade linguistica é realmente evidente.

Creio que o mesmo se aplique ao Budismo, e chego finalmente à razão deste breve artigo. O professor Leandro Karnal escreveu, em sua conta no Facebook, que reencontrou a Monja Cohen (a quem não conheço e de quem pouco ouvi falar). Disse também que havia dado com ela um curso sobre Budismo e que preparavam, os dois, um livro sobre o mesmo tema. Talvez o senhor Karnal tenha falhado em não explicar sua participação tanto no curso quanto no livro, pois que, como historiador, pode muito bem discorrer sobre os aspectos históricos do Budismo japonês, mas, ainda assim, para fazê-lo com autoridade, seria necessário que tivesse consultado fontes em Japonês moderno e clássico, bem como fontes em Chinês. Será que foi este o caso?

O que quero dizer é que todos tem o direito de falar sobre o que quiserem, mas cabe ao interessado a responsabilidade de se certificar de que quem fala realmente entende do que fala, especialmente no Brasil atual onde a autoridade em uma area qualquer do conhecimento parece conferir, automaticamente, autoridade em uma outra area, como se conhecimento fosse algo que se adquire por afinidade. Infelizmente (ou felizmente), não é esse o caso.  Portanto, cabe encerrar este artigo com uma palavra de advertência: atenção.

* Textos referentes às correntes de pensamento existentes no período histórico onde o daoismo floresceu, e.g. confucionismo, legalismo, estratégia, militarismo, ruralismo, Yin-Yang, nominalismo, etc.

Estupro Anal

O Brasileiro é uma Vergonha