Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

Como Meditar: ponderações sobre as ideias de Zhuangzi.

Muito se fala sobre a meditação, e não creio que seja pertinente aumentar o número de artigos e tutoriais que tratam dos particulares deste tema - afinal, qualquer busca no Google resultará em centenas de artigos e vídeos à respeito. Não; creio ser mais apropriado abordar o tema do ponto de vista de algumas de minhas experiências pessoais.

... frequentemente me perguntava como é que aquilo que limitava, restringia e aprisionava, poderia afinal resultar em libertação.

A prática da meditação sempre foi um desafio pessoal, pois se por um lado eu entendia perfeitamente sua necessidade perene, por outro a dificuldade em incorporá-la à rotina da minha vida cotidiana sempre me pareceu grande demais. Até um certo momento, minha prática meditativa esteve constantemente marcada por determinações de professores, monges e mestres, o que me parecia absolutamente contrário ao próprio sentimento de paz e liberdade que era ora objetivo, ora resultado da meditação. Dizem que para meditar bem é necessário educar o corpo e controlar a mente, e para tanto determinam-se diferentes regras sobre como sentar, como respirar, como se mover, onde meditar e até mesmo como pensar. Cercado de regras por todos os lados, e por elas limitado nos aspectos físico e mental, restava-me (como restaria também a qualquer indivíduo) somente a submissão total ao método e à promessa de que eventualmente, mestre de meu corpo e minha mente, alcançaria, senão a verdadeira liberdade da mente e do espírito, pelo menos um estado de consciência mais refinado.

Não foi até que eu estudasse com afinco o texto original — em chinês clássico — do Zhuangzi, que meu entendimento sobre a prática da meditação expandiu-se consideravelmente.

Ocorre que promessas raramente foram incentivo suficiente para que eu — em busca de um objetivo pouco tangível como o descrito acima —me dispusesse a submeter corpo e mente à determinações restritivas,  de modo que frequentemente me perguntava como é que aquilo que limitava, restringia e aprisionava, poderia afinal resultar em libertação. Na verdade, como fui descobrir décadas mais tarde, a ideia não pode ser de todo descartada, pois que em muitas escolas de pensamento a “não forma” é alcançável somente através da “forma”.  Não obstante, quando se pensa sobre a mente, nunca me pareceu adequado que eu precisasse antes restringir para somente então libertar, mesmo porque a mente do indivíduo já vem sendo limitada desde a mais tenra idade, tanto pela educação quanto pelos elementos sócio-culturais que agem como formadores da personalidade individual.

Não foi até que eu estudasse com afinco o texto original — em chinês clássico — do Zhuangzi, que meu entendimento sobre a prática da meditação expandiu-se consideravelmente. Através do estudo e da reflexão das ideias daquele grande sábio — pobre e miserável em sua condição material, porém herdeiro da mais pura tradição de outros grandes como Laozi e seu discípulo Guanyin, e habitante de realidades ainda hoje ignoradas pela maioria dos homens — compreendi que a meditação não determina postura, técnica, local apropriado para a prática ou mesmo mestre, e que, mais do que isso, ela nada determinava, libertando assim o indivíduo das limitações da prática restritiva e tornando possível sua incorporação à vida diária nas grandes cidades. Isso quer dizer que:

  1. Não é necessário qualquer postura específica para meditar; sente-se, deite-se, recoste-se ou permaneça de pé — a escolha é pessoal. O único fator de importância é permanecer confortável.
  2. Não é necessário encontrar um lugar calmo para se meditar. Naturalmente, o silêncio a prática mais fácil, mas na sociedade em que vivemos raramente temos a oportunidade de nos encontrar em local calmo o suficiente para conduzir a meditação. Se por um lado a meditação abstraí o indivíduo das coisas mundanas e eleva seu espírito à realidades ocultas, promovendo o êxtase espiritual — e este processo acontece mais facilmente através do silencio —, por outro ela deve também promover a integração do indivíduo ao meio em que vive, e para isso não há necessidade do silencio. Assim, medite em qualquer lugar, seja ele silencioso ou não. Não tenha medo do barulho da rua ou dos sons das coisas, pois esses são os sons que compõem a sua realidade e, como tal, devem ser incorporados à sua meditação — receba-os com alegria. Havendo possibilidade de escolha, prefira um local calmo; não sendo possível escolher, medite onde puder. Não resista aos sons - receba-os e transforme-os através da meditação.
  3. Não se preocupe em controlar a mente; ela tem uma conexão direta com o Caminho (Dao), e não precisa que você tente controlá-la. Coloque-se em posição confortável, feche os olhos, dê  boas vindas aos sons que o cercam e deixe que a mente siga seu caminho, pois ela sabe exatamente aonde deve chegar. Seu único trabalho? Não atrapalhar.
  4. Entenda que não se precisa de um mestre para meditar, porquanto cada um já tem, dentro de si, o melhor mestre que poderia encontrar. Deixe que a própria natureza das coisas, que reside dentro de cada indivíduo, seja seu mestre. Restabeleçendo seu elo de ligação com a natureza — enfraquecido por incontáveis horas de televisão, computadores, regras e determinações impostas pela sociedade — , o indivíduo redescobre a si mesmo e conecta-se à todas as coisas do mundo.

 

Sente-se agora mesmo, feche os olhos e, livre de regras e determinações que limitam suas experiências meditativas, inicie — ou reinicie — sua viagem através da meditação, e perceberá, tão logo permitir que  a natureza flua através de seu ser, que o próprio universo medita junto à você. 

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