Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

Xingyiquan e Filosofia Chinesa

Xingyiquan e Filosofia Chinesa

A arte marcial do Xingyiquan, criada na região de Shanxi, no século XVIII, é parte importante do legado cultural e filosófico do povo chinês. Grande parte — se não a totalidade — da herança filosófica do Xingyiquan tem sua origem no militarismo da China antiga, pois era o militarismo que determinava os princípios básicos do treinamento militar, do qual o treinamento marcial fazia parte. Hoje, porém, apesar do treinamento civil do Xingyiquan acontecer sob condições diferentes,  a arte ainda mantém seu vínculo direto com o pensamento clássico chinês, e o objetivo do treinamento continua o mesmo: a autodefesa seguindo os princípios do militarismo e da estratégia como estabelecidos nos textos militares e estratégicos da China antiga.  

Entretanto, entender a teoria, os princípios básicos da arte e ter algum conhecimento do pensamento clássico chinês é suficiente apenas para orientar a prática em seu estágio inicial;

O treinamento e a posterior execução do Xingyiquan dependem do correto entendimento de sua teoria e de seus princípios mais básicos. Como a teoria e os princípios básicos estão intimamente ligados a elementos do pensamento clássico chinês, do militarismo e da estratégia, e, como sem eles o treino e a prática não podem ocorrer de forma minimamente desejável, torna-se, portanto, necessário que —  logo no início — o estudante receba instrução também nesta área. Entretanto, entender a teoria, os princípios básicos da arte e ter algum conhecimento de alguns elementos do pensamento clássico chinês é suficiente apenas para orientar a prática em seu estágio inicial; para além disso é preciso que o praticante também entenda como esses três elementos se relacionam dentro do Xingyiquan e como são utilizados em treinamento e em combate real. Mais ainda: em um momento posterior, onde o aluno se dedica à práticas mais profundas, é absolutamente necessário que o ele entenda o caminho que estes elementos do pensamento clássico chinês perfazem dentro da própria  arte do Xingyiquan, desde um ponto inicial onde são apenas inspiração, prosseguindo em sua evolução até tornarem-se regra e finalmente chegando até o ponto onde se tornam expressão mental e física que passa a existir através da mente e do corpo do praticante. Na mente, existem como intenção e potencialidade, residindo nos processos mentais que são a base da arte, e, no corpo, como a ação marcial. 

...pode-se afirmar com total segurança que a arte do Xingyiquan beneficia a mente e o corpo, pois que ao mesmo tempo em que trabalha a mente através de incessantes processos mentais, trabalha também o corpo, incumbido da tarefa de expressar tais processos de forma física.

Percebe-se que o Xingyiquan é uma arte que prevê uma grande integração entre a mente e o corpo. Tal integração é necessária por duas rações principais: primeiro, porque é a mente que deve inicialmente compreender e contextualizar a teoria, de modo a que possa se utilizar do corpo e de modo a que este se torne sua expressão física e objetiva; segundo, porque uma vez compreendida a teoria, dela começam a surgir os princípios do pensar e do agir, princípios estes que, em razão de sua natureza imaterial, habitam na própria mente. Assim, pode-se afirmar com total segurança que a arte do Xingyiquan beneficia a mente e o corpo, pois que ao mesmo tempo em que trabalha a mente através de incessantes processos mentais, trabalha também o corpo, incumbido da tarefa de expressar tais processos de forma física.  A integração entre mente e corpo como descrita acima confirma a necessidade fundamental de certos elementos do pensamento clássico chinês para a prática do Xingyiquan, pois ,se por um lado estes elementos dão forma à teoria da arte, por outro também servem de substância aos princípios que conferem à arte a sua unidade. Isto quer dizer que as diretrizes teóricas do Xingyiquan vêm diretamente do pensamento clássico, e que, por conseguinte, é este mesmo pensamento clássico que será tanto a origem como a substância dos princípios da arte. 

 

Finalmente, em função de tudo o que foi dito acima, pode-se afirmar que a prática do Xingyiquan revela três aspectos interconectados: o marcial, o filosófico e o cultural. A arte não se revela somente marcial (como um olhar inicial e equivocado poderia vir a revelar), mas também filosófica e cultural. É marcial pois preocupa-se com a habilidade marcial da autodefesa; é filosófica porque a prática depende diretamente da compreensão e contextualização de profundos conceitos da filosofia chinesa clássica; e é cultural porque mantém vivos o entendimento e a implementação de certos elementos do mais puro conhecimento militar-estratégico da China antiga. Quando estes três aspectos estão presentes no ensino e na prática do Xingyiquan, todas as possibilidades da arte podem ser gradualmente reveladas e vivenciadas, e o praticante poderá dela se beneficiar integralmente.

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