Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

Comentando texto do professor Bruno Rocha

Há poucos dias fui citado em um pequeno texto escrito pelo professor Bruno Rocha, que segue abaixo sem alterações. Volto depois para comentar.

BO PEEK vs VING TSUN - IMPENSÁVEL - Daniel Marks, that’s the same bullshit, Tyson would kill the suckers - coach Kawaun Adon, as we learn form you, Brkln Rules in real fights!
Gente, faço questão de postar isso para afirmar que venho da arte marcial tradicional chinesa, ao menos a versão praticada no Brasil, e realmente, não há termos de comparação com o pugilismo afro-americano.

Se ao invés de Tyson fosse um lutador do mesmo peso e altura do adversário chinês, aplicando corretamente o nosso estilo Bo-peek (apelidado de Peek a Boo por Cus D’amato) na versão marcial - a arte do 52 Hand Blocks - ele provavelmente devastaria o tronco do adversário logo na primeira troca seguida de contra ataque.

No cinema tudo é possível, na vida real, existem estilos muito efetivos de matrizes chinesas, mas o único ocidental em vida que eu sei que os domina é o shifu Tadzio Goldgewicht. Todos os demais, eu me incluo, somos adaptações para nossas culturas das matrizes chinesas. Assim, eu atribuo a genialidade de Marcello Luiz Teixeira e Luiz Pessanha ao seus respectivos desempenhos e não às artes que lhes foram transmitidas. Afirmo, estes dois gênios da luta brasileira, são gênios por terem “abrasileirado” seus estilos e não pela origem chinesa e sim apesar delas. No dia a dia das realidades, os adeptos do estilo de Tyson, desde que treinando para a defesa da vida e não por pontos - logo, de mão nua necessariamente - destroem quase todos os estilos orientais que conheço, especialmente os de origem chinesa. Fora o shifu Tadzio Goldgewicht, os demais são geniais lutadores BRASILEIROS de matrizes diversas. 
Fiz a minha escolha e não me arrependo. Eu vejo África por todos os lugares por onde ando, e não a China que reside na imaginação de Hollywood.

Décadas atrás, antes mesmo que eu houvesse me mudado para a China, eu e o professor Bruno Teixeira fomos alunos do renomado professor de arte marcial chinesa Marcello Luiz Teixeira (já falecido). À época, o ensino da arte marcial chinesa no Brasil — pelo menos o que conhecíamos, e não conhecíamos pouco!— era muito deficitário do ponto de vista marcial, pois que o foco estava sempre na perpetuação de elementos puramente fantasiosos da cultura chinesa. Chamar o que era commumente encontrado de “marcial” já era uma afronta ao pensamento lógico e à razão. Poucos ensinavam com o foco marcial e nenhum destes, em minha opinião, o fazia de modo a que seus lutadores estivessem aptos a lutar de acordo com os princípios das artes marciais chinesas - faltava-lhes, creio, conhecimento para isso. Marcello Luiz Teixeira era uma exceção. Homem de talento incontestável, foi capaz de contextualizar o pouco conhecimento que recebia daqueles a quem respeitava como mestres de modo a formar, a meu ver, alguns dos melhores lutadores de sua época. Não obstante, somente a generalidade não faz o lutador, e como havia em Marcello uma proporção desigual entre generalidade e conhecimento, ficou sempre muito aquém do grande mestre que poderia ter sido. 

No outro lado do extremo do treinamento marcial estava, entre outras artes, o Boxe Inglês, que no Rio de Janeiro sempre fora respeitado como arte marcial. É válido aqui esclarecer brevemente o leitor sobre a distinção entre treinamento esportivo e treinamento marcial. O primeiro ocorre em função de uma orientação meramente esportiva; o segundo a partir da necessidade da sobrevivência do indivíduo - por óbvio, os métodos de treinamento envolvidos e os resultados obtidos são absolutamente diferentes. Nem sempre completamente marcial em seu treinamento (possibilidade apontada pelo professor Bruno Rocha em seu comentário), a versão esportiva do Boxe treinada no Rio de Janeiro durante todo o final do século vinte ainda conseguia ser superior à quase todas as artes marciais chinesas que ví sendo ensinadas no Brasil. A dicotomia era gritante. 

As razões que criaram e perpetuaram esta dicotomia são diversas e não as discutirei neste breve artigo. Entretanto, vale notar que o entendimento da arte marcial chinesa em sua totalidade pode ser algo utópico, já que se pode argumentar, ás vezes com muita propriedade, que não há fim no aprendizado marcial. Todavia, é certo que existe um ponto no treinamento marcial onde o indivíduo obtêm a compreensão dos princípios básicos que compõem a arte marcial que pratica e está apto a expressá-los tanto mentalmente como fisicamente. Estes dois aspectos, o da compreensão e o da expressão, são mais difíceis de serem alcançados dentro da arte marcial chinesa - especialmente o primeiro que é o mais importante, já que obviamente não é possível expressar conscientemente aquilo que não se compreende. A prática marcial chinesa é elevada à condição de arte primeiro pelo próprio processo de treinamento que requer imersão social e cultural, e segundo pelo nível de entendimento dos princípios básicos da arte marcial praticada bem como pela habilidade do indivíduo em implementa-los diariamente em sua vida. Sem estes elementos vitais, a arte cede lugar à atividade física comum.

Ao professor Bruno ficam as minhas congratulações por ter conseguido identificar seu verdadeiro caminho marcial e meus sinceros agradecimentos  pela cortês lembrança.

 

Proteção Pessoal - 16 Regras que Toda Pessoa Deve Saber

A Medida das Coisas