Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

A Medida das Coisas

A sociedade hoje prevê a propagação de uma consciência coletiva, resultado direto da manipulação psicológica a que estamos submetidos e que tem por objetivo gerar comportamentos de massa que servem a interesses estranhos ao próprio ser. Para isso, uma das estratégias é a de diminuir a individualidade dos ser e aumentar sua consciência social coletiva. 

Como ser individual, cada pessoa tem a sua própria medida das coisas, sua idéia sobre um determinado assunto. As idéias das pessoas sobre um ou outro assunto podem ser similares ou mesmo convergir, e quando as idéias de um grande número de pessoas convergem, ou quando se faz com que convirjam, essas idéias são então adotadas como a medida das coisas na sociedade. Não obstante, cada pessoa é um ser individual único, e não creia que por estarmos inseridos em um ambiente social coletivo nossa individualidade deveria ser extinguida, nem que deveríamos adotar a medida das coisas coletiva como parâmetro pessoal ou mesmo que deveríamos adotar qualquer medida das coisas. No entanto, é exatamente isso o que fazemos.

...desde a infância, o indivíduo aprende que deve não somente ter uma medida das coisas, mas também que deve se conformar e aceitar a medida das coisas coletiva, bem como adota-la como se fosse a sua própria.

Acontece que, desde a infância, o indivíduo aprende que deve não somente ter uma medida das coisas, mas também que deve se conformar e aceitar a medida das coisas coletiva, bem como adota-la como se fosse a sua própria. Ou seja, passa por um processo de “educação” e conformismo que lhe afasta de seu estado natural (e portanto um processo violento) e lhe força e viver em estado ou bem de constante conformismo ou bem de constante conflito por não se ajustar ao modelo de valores sociais vigente.  Findo o processo, o indivíduo aprendeu a jogar no lixo sua própria medida das coisas — a qual tragicamente nunca foi capaz de identificar —  e adotar àquela da coletividade. “Mas o que é isso?”, perguntarão uns, “Sou senhor da minha vida e tomo minhas próprias decisões!”. Será mesmo, pergunto? Sim, é bem verdade que vez ou outra o indivíduo pode desviar-se um pouco da medida das coisas coletiva e agir “como bem entende”, mas somente porque a prisão da medida das coisas coletiva é flexível, justamente para que possa dar ao indivíduo a ilusão do controle. Ou seja, em determinados momentos o indivíduo desvia-se da medida das coisas coletiva, mas — e aqui atentem para dois fatores importantes, um quantitativo e outro temporal — desvia-se pouco e por pouco tempo. A constante na vida deste indivíduo não é o desvio, mas sim a vida em conformidade, e portanto é nela que encontra conforto e segurança, e é para ela que sempre retorna. E é por isso que nunca se desvia muito e nem por muito tempo, pois o preço do desvio maior é a exclusão social, a culpa, o medo, a angústia, a insegurança e mesmo a loucura.

O meu primeiro passo na busca do caminho foi ter ouvido falar dele. O segundo foi ter tido coragem para busca-lo. O terceiro foi me libertar da prisão das idéias coletivas e adotar completamente a minha própria medida das coisas. O quarto foi entender que ninguém pode ter a medida das coisas, porque a medida das coisas não existe.

Comentando texto do professor Bruno Rocha

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