Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

O Portal

A busca pela libertação das coisas do mundo — e por conseguinte a liberdade absoluta — tem sido uma constante em minha vida. Não me refiro aqui à liberdade advinda da negação das coisas, mas sim daquela resultante da compreensão de suas naturezas, incluindo a deste próprio que vos escreve. Nesse sentido tenho buscado conhecimento através de diferentes fontes, as literárias sendo somente uma delas, mas sobre a qual escrevo aqui. Quatro ou cinco livros tiveram imensurável impacto em minha formação, ainda que em momentos diferentes e por razões únicas. São eles: O Alquimista, de Paulo Coelho; A Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda, e Zhuang Zi, pelo próprio e seus discípulos. O primeiro me trouxe a calma, o segundo me mostrou que havia outro caminho, e o terceiro me libertou (embora não completamente) das coisas da vida. Outros livros foram vitais em minha formação, ainda que, isoladamente, não tenham tido a mesma “importância” (por falta de uma palavra mais adequada) dos três acima, tais como A Arte da Guerra, de Sun Zi e Os Analectos, compilado por discípulos de Confúcio.

Como não poderia deixar de ser, esta nova conduta nem sempre é compreendida por aqueles cujo próprio caminho cruza o do viajante, pois ainda que a travessia do umbral esteja ao alcance de todos, poucos são os que conhecem sua localização. A maioria nem sabe que existe.

 

Voltando aos três livros iniciais, o que mais teve significância em minha vida até o momento foi, sem dúvida, o Zhuang Zi. Após lê-lo e implementa-lo, senti que, finalmente, aos quarenta e poucos anos, me aproximava daquilo que sempre havia buscado. De longe, à distância, ainda envolto pelas brumas da ignorância, já vislumbro o portal e, como nesses momentos a ilusão do tempo e espaço se desfaz, sinto que, mesmo distante, já começo a atravessar-lhe o umbral. A travessia não ocorre sem uma profunda mudança no paradigma cognitivo e, por óbvio, na própria conduta do indivíduo. Como não poderia deixar de ser, esta nova conduta nem sempre é compreendida por aqueles cujo próprio caminho cruza o do viajante, pois ainda que a travessia do umbral esteja ao alcance de todos, poucos são os que conhecem sua localização. A maioria nem sabe que existe. 

Assim, uns me dizem que agora sou cruel. Outros que tornei-me indiferente. Outros ainda que minhas opiniões não têm legitimidade. Mas onde estou não existe mais crueldade, indiferença ou legitimidade. Onde eu estou, existe só liberdade.

A Medida das Coisas

Chatos de Galocha