Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

Cunha, Dilma e a Vingança Política

A estratégia chinesa prevê uma análise profunda e honesta da natureza das pessoas, daquele que implementa a estratégia e daquele em quem (ou para quem) ela é implementada. Isso é uma necessidade porque é a natureza humana que vai determinar as ações do indivíduo. Primeiramente é preciso ver as coisas como elas realmente são na natureza humana e na política dentro de um estado de direito. No que diz respeito à natureza humana, é lógico que o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, pode estar agindo por vingança, de modo a facilitar o impedimento da Presidente da República Dilma Rouseff, como também é lógico que a Presidente pode ter agido por vingança contra Eduardo Cunha em um passado recente. É lógico porque tanto Eduardo Cunha como Dilma Rouseff, antes de serem respectivamente Presidente da Câmara e Presidente da República, são seres humanos como qualquer pessoa, e, portanto, passíveis de todo e qualquer sentimento ou motivação a que estão passíveis todos os seres humanos. O fato de que isto não esteja claro me faz pensar que é necessário humanizar os nossos políticos, ou seja, é necessário que o povo entenda que os nossos políticos são pessoas como quaisquer outras, pessoas que tem medos, desejos e fraquezas, e que portanto erram, agem por vingança e por motivações pessoais. Não poderia ser diferente. O que poderia se aspirar de nossa classe política é que colocassem o bem do país acima de suas motivações pessoais, mas isso já é uma outra história.

...quando a moralidade está em baixa, entra em cena o próprio instinto da preservação humana que se revela nas ações de pessoas que se aproximam daquilo que lhes é benéfico e se afastam daquilo que lhes é prejudicial.

Porém, neste caso em particular, precisamos separar o Eduardo Cunha homem, pai de família e marido, que tem seus medos, desejos e motivações pessoais, da figura de Eduardo Cunha Presidente da Câmara dos Deputados, porque ainda que o homem Eduardo Cunha tenha motivações pessoais que o levem a querer prejudicar a Presidente Dilma, sua habilidade em assim fazê-lo está limitada pela sua condição de Presidente da Câmara. Nesta condição, limitado que está pela Constituição Brasileira, pode somente aceitar ou não aceitar um pedido de impedimento. Claro, como Presidente da Câmara e membro daquela casa, Eduardo Cunha tem a prerrogativa de se posicionar claramente a respeito da possibilidade de impedimento da Presidente e, posicionando-se a favor, trabalhar de modo a torná-lo possível através de alianças individuais ou partidárias, discutindo possíveis benefícios a quem compartilhar de sua posição. E aqui vale dizer rapidamente que é natural que o “benefício” seja a moeda de troca do momento, pois que quando a moralidade está em baixa, entra em cena o próprio instinto da preservação humana que se revela nas ações de pessoas que se aproximam daquilo que lhes é benéfico e se afastam daquilo que lhes é prejudicial. 

Com efeito, esta aparenta ser a natureza da atividade política brasileira, onde tudo pode ser conseguido através de favores e alianças e onde estes, junto à própria perpetuação do indivíduo no poder, parecem ter mais importância do que o bem da nação. Não, não é uma situação ideal, mas é assim que as coisas aparentemente funcionam por aqui. Por isso, o PT, que é um partido político que surgiu, se desenvolveu e chegou ao poder dentro deste tipo de realidade política, deveria entender que tanto a clara escolha de lado no que diz respeito à possibilidade de impedimento da Presidente, bem como a ação política no sentido de viabilizá-lo são perfeitamente normais, desde que ocorram dentro dos limites da Constituição.

Não há golpe, apenas a implementação de expedientes respaldados na Constituição da República Federativa do Brasil.

Como Presidente da Câmara, Eduardo Cunha tem agido respeitando a constituição. Não pode, por si só, declarar a Presidente impedida. Mas pode, aí sim, agir no sentido de não dificultar o andamento dos procedimentos necessários, e pode também participar ativamente do jogo político para tentar viabilizar o impedimento. Mas o governo também pode atuar (como tem atuado) no sentido contrário. Ou seja, pode trabalhar para que o processo de impedimento não se inicie ou, caso seja iniciado, para que a Presidente não seja impedida. Para isso, dispõe das mesmas “armas” que o presidente da Câmara, podendo logicamente agir nos limites da constituição. Assim é a natureza do cenário político atual. Não há golpe, apenas a implementação de expedientes respaldados na Constituição da República Federativa do Brasil.

 

 

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