Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

A Máscara Social, a Arte Marcial Chinesa e o Bem da Nação.

Anos atrás escrevi uma série de artigos em chinês para a revista Wuhun, publicação chinesa sobre artes marciais. Entitulada "Nascendo e Vivendo no Mundo Imaginário das Artes Marciais Chinesas", a série identificava um problema recorrente dentro da comunidade das artes marciais chinesas da China: o fato de grande parte dos praticantes (seja lá em que nível estiverem, e aqui entenda-se "mestres" e alunos) viverem em um mundo imaginário, criado e mantido por eles mesmos. Este imaginário, que é ao mesmo tempo individual e coletivo, onde os praticantes vivem felizes e satisfeitos, existe para mascarar a realidade de que grande parte destes indivíduos não tem o conhecimento e a habilidade que gostaria de ter.  Confrontados então, de um lado, pela própria compreensão de suas limitações e, por outro, por seus medos e frustrações, e de modo a justificar sua covardia, escolhem a saída mais fácil, aquela do fraco e do covarde, que é justamente a de criar uma realidade que explique e justifique suas limitações. 

No Brasil o fenômeno também existe, dividindo lugar com outro igualmente pernicioso - aquele que faz com que os praticantes menosprezem professores e mestres brasileiros, ou seja: se o sujeito é brasileiro, muita coisa não deve saber, pensam. (se for norte americano ou europeu ainda vai, mas brasileiro não pode)  Esta é também a saída do fraco, pois que ao nivelar todos os praticantes brasileiros por baixo, soluciona-se imediatamente o problema da falta de conhecimento. A lógica, que parte de uma premissa insustentável,  é muito simples:

  1. brasileiros sabem sempre menos do que os chineses, independente dos particulares de sua formação;
  2. eu, Tadzio e o José da esquina somos brasileiros; 
  3. logo, eu, Tadzio e o José da esquina somos todos inferiores a qualquer "mestre" chinês, o que nos faz iguais em nossa limitação.

Pronto, problema resolvido. Evidentemente essa lógica não é utilizada por todos, mas a minha experiência pessoal me faz crer que seja utilizada por muitos, o que é preocupante, e explico a razão mais abaixo. Pessoalmente este fenômeno não me afeta, mas é interessante destacá-lo porque está diretamente ligado à nossa capacidade (ou incapacidade) em progredir como um povo. Vivêssemos em uma sociedade moldada nos valores do sábio chinês Zhuangzi, que acreditava que o conhecimento fazia mais mal do que bem, nossa inabilidade em reconhecer fontes de conhecimento não seria problema. Entretanto, não sendo este o caso, e não estando este fenômeno restrito à esfera das artes marciais chinesas, é natural que ele desperte preocupação dentre os que pensam no bem da nação.

Arte Marcial Chinesa

A Nova Intelectualidade