Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

Estratégia e as Manifestações do Dia 13

O povo compareceu em massa às ruas no último dia treze. Fala-se em três milhões e meio de manifestantes em todo o Brasil,  mais do que isso segundo os próprios organizadores. Ato expurgatório que ajudou brevemente a lavar a alma da maioria esmagadora da população de toda a raiva e decepção que nutrem com relação ao “governo” (entre aspas, sim, pois aqueles que lá estão hoje não parecem ter, acredito, envergadura moral para governar nada que não uma grei de desqualificados e traidores da pátria), as manifestações devem ser entendidas somente por aquilo que representam, nem mais, nem menos.

Ações populares que não sejam idealizadas partindo-se dos princípios da estratégia tem pouco ou qualquer efeito no sentido de mudar a real ordem das coisas.

Tal demonstração de repúdio a um governo sobre o qual pairam gravíssimas acusações de corrupção sistêmica, e para o qual resta verdadeiramente pouca ou nenhuma defesa que não aquela do populismo mais vil e degradante, trás em si mesma um grande poder, que não é outro senão o da própria energia potencial. Naturalmente a energia potencial representa o poder da potencialidade, pois que reune em um só ponto focal a força de um determinado momento ou situação. Em estratégia é um trunfo grandioso, embora a não compreensão de sua natureza possa de fato nulificar seu monstruoso poder, além de representar grande risco a quem o utiliza. Estabelecendo uma relação direta com a atual conjuntura sociopolítica (mudança do paradigma sociopolítico), quando o indivíduo decide disparar uma flecha certeira que idealmente trespassará o coração de seu inimigo, criando assim uma oportunidade real de troca de poder (exemplo em sentido figurado), é necessário que ele primeiramente acumule recursos, a saber, mas não somente: definir objetivos e metas, estudar elementos relevantes tais como indicadores econômicos e o contexto sócio-político; criar condições que garantam sua própria segurança; buscar, agrupar e distribuir minuciosamente indivíduos que compartilhem dos mesmos objetivos, definindo propósitos relevantes para cada grupo e (ou) indivíduo; definir com clareza possíveis aliados e inimigos e realizar as alianças necessárias; levantar informações precisas sobre o alvo, sua personalidade, seus hábitos, horários e segurança pessoal; um sujeito capaz de utilizar o arco, de criar energia potencial, de definir o momento e a localização do disparo e de realizá-lo com precisão; pelo menos um outro sujeito que fará exatamente a mesma coisa que o anterior e que estará de prontidão para realizar um segundo disparo caso o primeiro falhe; um plano de ação factível que será implementado imediatamente após o disparo, de modo a garantir que o vazio deixado pela morte do alvo não seja ocupado por outros senão aqueles que idealizaram e planejaram a ação (plano este que naturalmente desdobra-se em outros menores que devem levar em conta a utilização dos espiões, dos traidores e de outros atores importantes em cenários desta natureza).

A breve alusão acima remete a alguns dos muitos pontos aos quais o estrategista deve considerar com extrema cautela e precisão. Ainda que entre os mesmos haja uma evidente relação de interdependência, dois elementos destacam-se em sua importância maior: a consciência de que a estratégia é absolutamente necessária para a idealização e implementação da idéia e o entendimento da necessidade da criação e implementação da energia potencial. A importância do primeiro é patente, pois que sem uma estratégia minuciosa nenhuma ação social ou política digna de nota pode ser levada a cabo, e o segundo é vital porque a energia potencial é o veículo através do qual a mudança pode vir a acontecer. Entretanto, nenhum dos pontos acima tem em si o poder de provocar a mudança. A estratégia, embora fundamental, somente ensejará a mudança a partir do momento em que possa traduzir-se em ações reais. Já a energia potencial, precisa ser utilizada e orientada com base na estratégia, ou corre o risco de gradualmente deixar de existir ou mesmo prejudicar aqueles que a utilizam. Trocando em miúdos, não basta tensionar ao máximo a corda do arco e não saber o que fazer com a energia gerada, como também não basta tensionar ao máximo a corda e não saber para onde atirar. Ademais, ainda que se estabeleça uma estratégia que crie a possibilidade de gerar energia potencial, ainda que esta seja liberada na direção necessária e ainda que a flecha que seja seu veículo atinja o alvo de forma certeira e fulminante, é fundamental que aqueles envolvidos na ação tenham um plano factível para preencher o vazio político que a morte do alvo ensejará.  

É como a história dos macacos que se revoltaram em razão de receberem somente três bananas pela manhã e quatro à noite. Para resolver a situação o criador propôs uma mudança: passariam a receber quatro pela manhã e três à noite. Os macacos adoraram.

Assim, dentro deste contexto de paralelismo lógico entre arcos e manifestações, fica absolutamente evidente que nós não temos estratégia, plano, objetivos ou aliados - certamente não trabalhando juntos. Vale também lembrar que não basta lavar às ruas três milhões e meio de pessoas sem ter definido e acumulado recursos estratégicos relevantes, bem como não basta gerar energia potencial advinda da concentração de três milhões e meio de manifestantes e não utilizá-la de maneira estratégica. Esperar que o congresso ou que a classe política haja é, quando muito, ingenuidade infantil, pois que ainda que hajam, nada mais farão que destituir um governo para instaurar outro que, ainda que não seja idêntico ao primeiro,  deverá seguir adotando o modelo político que tão bem conhecemos e repudiamos (ou sobre o qual gostamos de demonstrar repúdio). É como a história dos macacos que se revoltaram em razão de receberem somente três bananas pela manhã e quatro à noite. Para resolver a situação o criador propôs uma mudança: passariam a receber quatro pela manhã e três à noite. Os macacos adoraram.

Tristemente, as manifestações do último dia 13 não acumulam nenhum dos elementos que necessitariam para dar ensejo à mudança que considero realmente necessária para o país. Por óbvio não falo da mudança de protagonistas no poder executivo, tão válida como a das bananas, mas sim daquela que a adoção de um novo paradigma social ensejaria. Assim, como elemento social, tais manifestações representam somente um acumulo de energia potencial, bem como representaram aquelas do ano passado. Não devem então ser compreendidas, como energia potencial criada a partir de uma estratégia que tenha objetivos bem definidos, pois que seu objetivo principal foi somente o impedimento da atual Presidente. Naturalmente que é necessário considerar o objetivo secundário, justamente aquele do combate à corrupção, mas este não tem, pelo menos nesta análise, caráter representativo como o primeiro, pois que jamais ensejaria a mudança que realmente importa. Criar energia potencial e não utilizá-la de forma correta é uma temeridade, pois que seu poder é relativamente proporcional a seu risco - o arco suporta somente uma determinada tensão, e somente por um determinado período de tempo. Pressão maior do que suporta ou menor por mais tempo do que suporte, terminarão por inutilizar o arco. Ações populares que não sejam idealizadas partindo-se dos princípios da estratégia tem pouco ou qualquer efeito no sentido de mudar a real ordem das coisas. 

Vídeo: Embate Sociopolítico

Arte Marcial Chinesa