Baseado em Toronto, Canadá, Tadzio goldgewicht é um sinólogo especialista em pensamento chinês clássico, chinês arcaico e na arte marcial do Xingyiquan. Atua como professor e consultor.

O Que é Preciso Para se Falar Sobre a Filosofia da China com Propriedade

A sociedade como um todo atravessa um momento de profunda modificação - no cenário político novos atores assumem posições de poder, passando a definir tendências e trazendo consigo a força potencialmente transformadora de suas próprias heranças culturais. Na esfera intelectual surgem não somente ideias que desafiam valores já estabelecidos e comumente aceitos, mas também novos paradigmas cognitivos e modelos sociais; mas é no âmbito social que o embate de ideias faz-se sentir de forma mais objetiva através do constante e violento confronto entre pensadores, intelectuais, acadêmicos, desinformados e/ou ignorantes. A todos esses a Internet deu voz, entretanto, cabe a cada um certificar-se, dentro de suas possibilidades, quais delas informam com propriedade, quais confundem e quais somente alimentam a ignorância.

 

Talvez a mais relevante de todas as novas potências mundiais seja a China, que se tem destacado, dentre outros particulares, por seu maciço investimento nas áreas da pesquisa acadêmica, do militarismo e da política internacional. Com o aumento da relevância chinesa no cenário internacional, é natural que também sua cultura e seu pensamento passem a ocupar um lugar de destaque nas esferas acima citadas. Como é sempre o pensar que precede e determina o agir,  do ponto de vista político e militar é vital que se entenda como pensa o homem comum chinês, de modo a que se possa prever e antecipar as tendências e ações políticas, militares e sociais chinesas, podendo-se afirmar com segurança que não se entenderá jamais como pensa esse homem de forma completa sem um conhecimento profundo do pensamento clássico da China,  pois é ele que, em grande parte, determina seu pensar, e, portanto,  seu agir.

Falar sobre o pensamento clássico chinês sem ter lido os textos relevantes em chinês clássico, é falar sobre o que se ouviu dizer.

 

Não obstante, do ponto de vista do indivíduo, o desejo de conhecer a cultura chinesa, agora mais imperioso do que nunca, pode ser explicado a partir da necessidade em dar sentido à uma realidade caótica, onde a transformação de certezas individuais e valores coletivos ameaça a própria ordem das coisas como a maioria das pessoas a conhece e produz uma espécie de senso coletivo de insegurança. Assim é que se constata, sem qualquer espanto, o aumento do número de indivíduos e organizações que discorrem sobre ideias relativas ao pensamento clássico chinês; ideias que floresceram durante um período igualmente caótico e muito similar ao que vivemos agora1. Naquele momento histórico tais ideias também serviam ao propósito de dar sentido à uma realidade caótica marcada pela mudança constante, pelo embate de opiniões e pela violência. Ocorre que para compreender razoavelmente uma pequena parte que seja do pensamento clássico chinês, e portanto sobre ele discorrer com minima autoridade, é necessário ler os textos como foram escritos em seu original no chinês clássico - língua morta bastante diferente do chinês moderno (comumente conhecido como “mandarin”). Falar sobre o pensamento clássico chinês sem ter lido os textos relevantes em chinês clássico, é falar sobre o que se ouviu dizer. Assim, pode-se perceber que para falar com o mínimo de propriedade sobre o pensamento clássico chinês em qualquer de suas vertentes, a saber o Daoismo (Taoismo), a filosofia clássica chinesa, as teorias da medicina tradicional chinesa e da acupuntura, os princípios do Yin-Yang, os Cinco Elementos e suas utilizações, a retórica clássica chinesa ou a estratégia e o militarismo clássicos, o domínio do chinês clássico é condição sine qua non.

Ter contato com as ideias desses pensadores através de fontes secundárias pode servir de boa introdução, porém jamais elevará o indivíduo além da condição de interessado
Texto em chinês clássico

Texto em chinês clássico

Mas qualquer chinês, pode-se argumentar, especialmente os mais cultos, pode discorrer sobre o pensamento clássico chinês e suas vertentes. Não; o entendimento e o domínio do chinês clássico — em seus diferentes graus de habilidade — é privilégio somente de uma elite intelectual na China, especialmente dos filólogos e dos filósofos, e um indivíduo comum chinês, ainda que bastante culto, não será capaz de entender um texto escrito em chinês clássico. Tanto é assim que a maioria esmagadora das edições de textos do pensamento clássico chinês apresenta sempre uma tradução para o chinês moderno e também uma tradução dos termos de maior dificuldade encontrados no texto; não raro, cada capítulo ainda é precedido por diversas páginas de explicações, tal a complexidade do texto e a dificuldade em se entender o chinês clássico. Algumas das mais significativas edições de textos clássicos — A arte da Guerra sendo um ótimo exemplo —, apresentam o texto original em chinês clássico sem qualquer tradução para o Chinês moderno, contando apenas com comentários escritos também em chinês clássico.

 

Todo aquele que deseje realmente entender as ideias dos grandes pensadores chineses e as escolas que delas se originaram deve necessariamente estabelecer um diálogo direto com cada um desses pensadores, e isso somente pode ser alcançado através da leitura de seus textos no original, em chinês clássico. Ter contato com as ideias desses pensadores através de fontes secundárias pode servir de boa introdução, porém jamais elevará o indivíduo além da condição de interessado, e aquele que se disponha a ensinar tais ideias sem antes ter mantido, através da leitura, um dialogo direto com seus criadores não estará qualificado a transmitir as ideias dos pensadores clássicos chineses. 

1 O Período dos Países em Guerra (475 A.C. - 221 A.C.), momento socialmente caótico caracterizado pela transformação da ordem social, incessantes campanhas militares e a constante disputa pela supremacia de ideias no cenário intelectual.

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Entenda capítulos inteiros, parágrafos ou somente passagens importantes de textos clássicos fundamentais nas áreas de:

  • Medicina Tradicional Chinesa e Acupuntura
  • Kungfu (artes marciais chinesas)
  • Filosofia Chinesa
  • Daoismo (Taoismo) ou Budismo
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